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O dilema da balinha de alga
Estava no meio da aula de não-me-lembro-o-que, alheia ao mundo rabiscando atrás do caderno, quando olhei para minha mochila e meus olhos a encontraram. Translucidamente vermelha, retangular, brilhando conforme a luz incidia sobre sua embalagem pouco prática de plástico. A última bala de alga, sobrevivente de uma semana de idas e vindas.
Instintivamente me inclinei para apanhá-la, mas parei ao meio do caminho e olhei o relógio: onze horas. Cedo demais para atacá-la. Não estava com fome ainda, mas certamente estaria até meio dia e meia – e mais tarde no trem, já que não chegaria em casa muito antes das duas. Estava decidido, a bala sobreviveria até os primeiros vestígios de fome aparecerem.
Voltei a prestar atenção na aula, mas segundos depois desviei novamente o olhar na direção da bala. Tão vermelha e macia, esperando para ser saboreada… Não, não até eu estar com fome. A discussão que acontecia à minha volta parecia animada, pessoas falando amplamente da leitura tema, pontos de vista diferentes expostos, e aquela balinha alí, suavemente doce e vermelha, buscando minha atenção com aquele brilho plástico. Cobri-a com alguma coisa, para tentar manter minha atenção. A bala só seria comida quando eu estivesse com fome. Ponto.
Uma vez fora de meu campo de visão ela se tornou ainda mais tentadora. Porque eu sabia que ela ainda estava ali, escondida, e enquanto não via sua cor a imaginava de forma mais viva. Seu sabor de doce vermelho, por mais suave que fosse, ainda era de doce vermelho. E os doces vermelhos são sempre os melhores. Com sua textura de gelatina ficava ainda melhor. E agora eu imaginava o sabor tantas vezes mais acentuado de gelatina vermelha.
Então me dei conta do que estava acontecendo. Nunca havia parado para pensar na angústia causada por uma simples bala de alga. Necessidade e desejo lutando contra razão e sensatez. Era um dilema pessoal agora, uma batalha interna demorando a ser solucionada e ao mesmo tempo capaz de passar despercebida. Quantas sensações e sentimentos haviam sido despertados naqueles dez ou quinze minutos, não sabia dizer. Mas precisava de uma solução.
Entrei em um acordo comigo mesma: eu poderia comê-la agora, mas ela deveria ser aproveitada ao máximo. Rasguei o plástico com os dentes – já que os dedos nunca conseguem desempenhar essa função direito – e logo pude sentir a textura e o sabor tão ansiosamente antecipados. Enfim paz. E por meia hora ela ainda sobreviveu, lançada de um lado para o outro em minha boca, perdendo pedaços progressivamente até ser completamente mastigada e encontrar seu fim.
1 comment Outubro 14, 2007
